Na última quinta-feira, o Fluminense venceu o Atlético Mineiro, pela 32ª rodada do Campeonato Brasileiro. Enquanto o Galo estava — e ainda está — no G4 (para quem não é fanático por futebol, é o grupo dos 4 primeiros na tabela), o Fluminense ocupava — e ainda ocupa — o Z4 (o oposto do G4, o grupo dos 4 piores na tabela e com chances ao rebaixamento).

Só que, com a vitória da última quinta, o tricolor carioca completou seis jogos sem perder. O que não significa muita coisa em um campeonato de pontos corridos, onde um empate vale apenas 1 ponto para o time, e uma vitória, 3 pontos. Como dizem por aí, em campeonato de pontos corridos, empatar é andar de lado.

Minha mãe, Fluminense desde criancinha, tem um problema: não consegue entender a (simples) ciência de um campeonato de pontos corridos. Há dois meses tento explicar, mas para ela, o que importa é que o Flu não perde há seis jogos, e não que hoje o time está no último lugar da tabela, com 30 pontos (mesma pontuação que o Sport, mas com uma vitória a menos). Minha mãe nem sabe direito quem é o Fred ou que o Cruzeiro, adversário de hoje do Fluminense, tem a melhor campanha do returno do Brasileirão.

Para minha mãe, um jogo do Fluminense é sempre um texto do Nelson Rodrigues, uma música do Chico Buarque. Minha mãe e sua incapacidade de compreender o que significam pontos corridos são a prova de que ignorância é uma benção. Embora apareça em músicas (Ignorance is Bliss, do Ramones), filmes e na crença popular, o primeiro lugar onde li essa frase foi em 1984, do George Orwell, escrito em 1948. Não é exatamente a mesma, mas usa a mesma idéia: “ignorância é força”.

Mesmo quando começarem a aparecer matemáticos nas reportagens falando das chances de cada time, minha mãe não vai entendê-las. Mesmo se disserem que o Flu tem só 1% de chance de não cair para a segunda divisão, ela não vai compreender. Mesmo se afirmarem que já era, agora só em 2010, ela não vai acreditar. Até o fim do campeonato, minha mãe vai suspirar aliviada a cada empate e comemorar cada vitória do seu Fluminense.

Às vezes, é bom ser como ela. Não é bom incentivar sempre a completa negação, especialmente porque se o Flu realmente cair, ela vai ficar bem mais chateada do que ficaria se já estivesse se preparando. Mas às vezes é melhor optar pela ignorância, e continuar abençoada — ou forte, para George Orwell. Às vezes, a gente sabe que as chances daquilo que queremos que dê certo são mesmo mínimas, mas a nossa crença cega e pensamento positivo, podem sim, fazer diferença. É o que prefiro acreditar, ao menos.

Mãe, vou torcer pro Flu com você.



2 Responses to “A ignorância é uma benção”  

  1. Eita, a torcida funcionou!

  2. Hahaha! Pé-quente sua mãe, hein? Sobrou para o Cruzeiro no Mineirão!

    Agora, se o Flu puder se enrolar contra o meu Palmeiras, agradeço desde já!


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