Desde Madrid eu nao visitava uma cidade grande e havia esquecido como um lugar pode ser tao diferente em apenas alguns quilômetros de distancia.
Meu hotel fica perto da Cidade das Artes e Ciências (o complexo enorme onde esta o Oceanógrafo, do qual falo num próximo post), o que é ótimo. Mas, ao mesmo tempo, fica um pouco longe do centro da cidade, onde estão todos os prédios históricos e museus.

Inicialmente, olhei pro mapa e pensei: ah, pego o metrô e chego no centro facilmente. Há uma estação a umas sete ou oito quadras de distancia, vou a pé rapidinho.

Errado. Primeiro porque as quadras eram bem mais largas do que as ultimas que andei em cidades como Sevilla, onde tudo esta no centro histórico e as distancias sao menores. Segundo porque já passava das 19h, o que aqui já é noitão porque está bem escuro. E terceiro porque o bairro onde esta meu hotel é basicamente residencial, o que o torna completamente deserto à noite.

Entao as oito quadras que na verdade nao tao longe assim acabaram sendo bem mais distantes para uma turista mulher que andava sozinha por ruas desertas. Mas tudo bem, sobrevivi porque estou aqui contando tudo, especialmente o final da historia: finalmente cheguei ao metrô e, com ele, ao centro de Valência, que pareceu uma cidade totalmente diferente: movimentadissima, iluminada, lotada de turistas e convidando todo mundo a andar pelas ruas e calçadões. Ali nao fazia diferença se eram 19h ou 22h, a hora que voltei pro hotel — com um taxi, por menos de 5 euros.


Nao importa a nacionalidade, a língua, algumas coisas nunca mudam:
– escrever numa notinha imaginaria pra pedir a conta
– piscadinha marota pra fazer criança sorrir
– passar a mão no cabelo e sorrir pra flertar
– dar de ombros quando nao entender o que o outro disse
– dar de ombros e aproximar o rosto pra ouvir, quando ainda nao entender o que o outro disse
– e o item mais impressionante: cu doce de mulher. Ate em japonês eu consegui reconhecer


Fui de trem para todas as cidades que visitei nessa viagem: Madrid, Sevilla, Valencia, Córdoba e Toledo. A essas duas últimas, fui e voltei no mesmo dia. Ou seja, quando voltar ao Brasil, terei pegado sete trens. Aí vão alguns pensamentos meus e retratos de passageiros durante essas viagens:

– Quando viajo em um trem rápido, sempre olho pro lado esperando ver o Tom Cruise negociando com uma chefona do crime, pra depois fugir pelo teto do trem e sobreviver a uma perseguição de helicóptero.

– Por que em 95% das viagens meu assento é virado na direção contrária à que viaja o trem? Só pra sacanear com meu labirinto?

– Já vi gente fazer sinal da cruz quando o avião decola, mas dessa vez vi uma nova: uma mulher rezando quando o trem saiu da estação.

– Cada vez mais pessoas lêem livros em kindles e afins. Admiro a tecnologia e o progresso, mas sou apaixonada por papel e livrarias: fico triste.

– Um executivo sentado do meu lado no trem pra Córdoba chegou todo elegante de terno, pasta, jornal e… Um saquinho de bala daquelas lojas que vendem por quilo (tem uma dessas em todas as estações).

– Outro executivo sentou na outra fileira e abriu a pasta dele, que tinha um espaço pra cada coisa importante: o iPad, os documentos, as canetas e uma foto 5 X 8 do filho dele.


Manchete e linha fina do jornal El Mundo Andalucía de ontem:

Un 65% de parados aceptaría un contrato con 20 días de despido

Un 63% de los desempleados menores de 30 años apoya los ‘minijobs’ y un 56% está dispuesto a trabajar por menos del salario mínimo interprofesional


Aqui o Big Brother se chama Gran Hermano (sem grandes surpresas, claro). Mas aqui o Bial é uma coroa de uns 60 anos que é a cara da Ellen Degeneres, usa terninho e tem corte de cabelo descolado.

A edição é mais tranqüila: nao rolam tantos barracos, nem tanta pegação. Os participantes sao pessoas (aparentemente) mais comuns do que os brasileiros: nao há piriguetes, nem marombados.

No dia em que assisti, a edição dedicou cinco minutos à chegada de um golden retriever e a como os participantes tiveram que ensina-lo a nao morder e a fazer xixi e cocô no lugar certo (e limpar o que ele fez no lugar errado).

Mas a maior diferença que vi e a que acho que faria muito sucesso no Brasil (só que ao contrario) é que o programa da eliminação da semana é reprisado depois. Já contei duas reprises depois da eliminação. Ou seja: imaginem assistir de novo e de nooovo aos discursos do Bial citando de Clarice Lispector a Sócrates, falando de filtro solar, pipinos do mar e sereias?


Por favor, me respondam se isso também acontece com vocês, porque sempre quis saber se isso era comum: quando estão há algum tempo longe de casa, vocês começam a ver estranhos e acha-los parecidos com amigos e familia?

Porque nos últimos dias vi minha madrinha no metrô de Madrid, meu irmão no bondinho de Sevilha e vários amigos em ruas espanholas… E tenho certeza que eles nao estão de ferias por aqui também.


Não me lembro qual foi a ultima cidade que visitei com uma concentracao tao alta de turistas como Sevilla. Talvez ela seja a campeã mesmo.

Mas nao me entenda mal: claro que outras cidades como Rio e Paris recebem muito mais turistas. Mas como Sevilla é muito menor do que elas, a sensação que da é que há um enxame de turistas. Ainda mais porque os principais pontos turísticos estão no centro histórico, o que concentra ainda mais as pessoas.

Pra todo lugar que voce olha, lá esta um casal olhando curioso para um mapa. Uma familia empurrando um carrinho de bebe e tentando entender onde esta indo. No começo ate tive receio de abrir o mapa no meio da rua como todo mundo, receio de brasileira escaldada. Mas é tanta gente e tanto mapa que voce acaba passando despercebido.

E por alguma razao que ainda nao descobri, tem muito, mas muito turista alemão em Sevilla. Ao menos mais do que em Madrid, Barcelona e Toledo, as cidades que conheço por enquanto.


Quando planejei minha viagem, ainda no Brasil, perguntei ao meu irmão, que já morou em Madrid, o que tinha de interessante para fazer em Toledo.

– Toledo… É a cidade. – afirmou, categórico.
– Como assim, não tem algo especifico, uma igreja, um monumento, um castelo?
– Até tem, mas… Vai por mim, a graça de Toledo é a cidade. Quando você chegar lá e ver Toledo, você vai entender.

E como em muitas vezes na vida de irmão mais velho e mais experiente do que eu, ele estava certíssimo.

Fiz o que ele disse: andei e andei por Toledo. Aliás, fiz ate mais: decidi pegar um daqueles ônibus sem capota. Não era pra ver a cidade? Então vamos ver a cidade, pensei.

Só que é nesse momento devia estar 0ºC, ou -1ºC. Eu sabia que estaria frio quando o ônibus começasse a andar e eu estivesse lá no alto? Sabia. Agora eu sabia que estaria frio a ponto de eu começar a achar que as pontas dos meus dedos (estava com luvas sem pontas pra poder usar a tela touchscreen do iPhone) poderiam cair, de tão roxos que ficaram? NÃO. Chegou um momento em que eu sabia que tinha de descer, mas meu corpo (leia-se: pernas) não respondia.

Aí usei o único recurso que me sobrou: puxei o capuz do enorme casaco que eu tive que comprar aqui e consegui me esquentar um pouco. E aí fica a lição do dia: se algum dia, em pleno inverno europeu, você resolver andar de ônibus sem capota pra conhecer uma cidade, use filtro solar CAPUZ!


Sim, a Espanha tem hoje o campeonato mais balado de futebol, como dizem no Brasil. Sim, nos últimos anos tem surgido mais e mais campeões em diversos esportes: além do Barcelona, a seleção campeã mundial; Nadal, no tênis; Alonso, na F1: Contador, no ciclismo; etc.

Mas os espanhóis não são apenas vencedores, são também apaixonados. Na TV do hotel em Madrid, contei, além do principal esportes em geral, quatro canais só de futebol, onde assisti até a um jogo do Paulista. Em Sevilla, são apenas três canais de futebol, mas também há o só de golf.

É incrível: voce liga a TV em absolutamente qualquer horário e haverá algum jogo de futebol, nem que seja VT. Agora, enquanto escrevo, às 2h30, estou vendo o VT de Leverkusen X Stuttgart.

E não é só o futebol, basquete também é grande aqui: em lojas de artigos esportivos, vi quase a mesma quantidade de camisas de times de futebol e da NBA. Até a NFL, mais tímida, também aparece: vão transmitir o Super Bowl. Pelo que entendi, a temporada não foi exibida, mas pra mim, o que importa é que passem a final enquanto eu estiver aqui.

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A galera PIRA com Shakira. Desde a senhorinha que sentou hoje do meu lado no trem e tinha um celular com o toque “Loca, Loca, Loca” (sim, foi praticamente impossível não rir alto na hora) até homens que ficam babando na frente de uma TV que esteja passando algum show dela.


Nada de Burger King, KFC, sanduíche natural… Se a pessoa está comendo no metrô, é Mc Donald’s. Geralmente, cheeseburger. Ontem um cara teve a façanha de, com o trem em movimento, abrir o sanduíche e colocar ketchup. Like a boss.


A moda dos minishorts em cima de meias-calças pretas chegou até as adolescentes espanholas, mesmo fazendo -2ºC lá fora.


Alguns pensamentos que tive hoje, durante o-dia-mais-frio-da-minha-vida, que terminou com termômetros em -1ºC:

– Quando o meteorologista na TV disser que está chegando uma onda de frio SIBERIANO, não ache que é só uma expressão exagerada; não ache que ela só vai chegar nos próximos dias; não ache que o casaco que você usou nos dias anteriores será suficiente

– Não acredite nos aquecedores. Aquele calorzinho gostoso que você sente quando sai do vento congelante na rua e entra na loja vai continuar lá quando você sair. Lá dentro você esquece do quão frio estava, ou começa a achar que “Aah, vai, deve ter melhorado já”. NÃO. Não terá melhorado. Ou estará igual, ou estará ainda pior.

– Não há hidratantes suficientes no mundo. Madri tem um frio muito seco. Você passa tubos e tubos de hidratante no rosto, nas mãos, manteiga de cacau na boca e, meia hora depois, tá tudo rachado de novo e com a sensação de estar pegando fogo. Homens, podem achar frescura, mas confiem no conselho: usem hidratante

– O vento vai embaraçar e zoar seu cabelo. Desista de arrumar toda vez que alguma mecha sai do lugar.

– O metrô costuma ficar mais quente do que a rua, mas sentar pra esperar o trem é uma péssima idéia: o banco frio vai congelar sua bunda.

– Da onde esses espanhóis tiram tantos casacos? Tem uma galera que praticamente vestiu edredons pra sair de casa. Só um casaco desses já ocuparia um terço do meu armário.

– Você sabe que tá frio mesmo quando erra o caminho, mas prefere andar uma quadra a mais do que ter que tirar as mãos do casaco pra abrir o mapa




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