Universo paralelo I

25Jun07

Hoje, depois de almoçar com duas amigas, uma delas voltou à faculdade, e fui tomar café com a que restou. O tempo fluiu naturalmente, exatamente como quando o acaso rege os fatos da nossa vida. Depois do café, conversamos por mais 15 minutos numa esquina que era a metade do meu caminho e do dela. Conversa despretenciosa, sobre ossos que já quebramos, e encrencas em que nos metemos quando crianças. De repente, digo para ela ir trabalhar, e que eu também devo fazer o mesmo. Ao chegar na faculdade, decido ouvir uma música do lado de fora, antes de começar o trabalho que estou adiando até agora. Quando a música está para terminar, um senhor se aproxima de mim, e faz um gesto para sua orelha, indicando que queria que eu tirasse meu fone de ouvido.Eu sorrio e tiro o fone. Fico surpresa porque ele fala comigo em inglês, e pergunta se o entendo. Respondo que sim. Ele me pede desculpas pela interrupção, me conta que é um professor, que está visitando o país como turista, e me pergunta se conheço alguém que possa ajudá-lo. Ele me conta que há dois dias foi assaltado na Rua Augusta por dois homens em uma moto. Um deles apontou uma arma para sua testa, enquanto o outro também o ameaçava com uma faca contra sua garganta, e arrancava sua pochete e pegava a máquina fotográfica que ele carregava.

Ele não me narrou a história pedindo que eu sentisse pena. Repetiu diversas vezes que estava muito envergonhado de ter de pedir ajuda a uma estranha. Me perguntou apenas se eu não conhecia alguém que pudesse ajudá-lo, pois não há consulado de seu país aqui em São Paulo. Na pochete estavam o passaporte e os travelers checks dele.

Desde o assalto, ele foi mandado a delegacias e bancos, tentando encontrar alguém que o entendesse em inglês e pudesse bloquear seus cartões e redigir um boletim de ocorrência. Ele me mostrou o boletim, assinado, carimbado. A história era verdadeira, mas eu já acreditava nele antes de ler o papel.

Dentre as muitas coisas que me contou, ele disse o quanto se arrependia por ter vindo a São Paulo. A idéia era visitar Manaus ou Belém, mas alguém lhe dissera que essa cidade era a metrópole do Brasil, com muito mais para se ver e fazer. Ele veio. E lhe aconteceu isso.

Ele me perguntou onde estava o Deus desse país e as boas pessoas do Brasil. Me disse que eu fui a primeira pessoa a lhe escutar, em dois dias. A única pessoa que se interessou por sua história e tentou lhe ajudar de alguma forma. Eu repeti tantas vezes quanto pude o quanto sentia por ele, e por essa situação em que ele estava. Indiquei um ônibus para que ele voltasse a seu hotel, onde estava uma cópia do passaporte.

Ele me perguntou por que as pessoas não o ouviam, não sequer olhavam para ele. Me perguntou se poderia ser porque viam primeiro sua pele, e o fato de que era indiano. Eu fiquei com o coração na mão. Ele repetiu, não uma, não duas, mas cinco vezes “Deus te abençoe”.

E eu estou com o coração na mão até agora. Se existe Deus e justiça nesse mundo, que elas sirvam para que esse senhor encontre uma forma de voltar para casa sã e salvo.

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4 Responses to “Universo paralelo I”

  1. 1 gambleeverything

    posso tirar seu coração da mão e colocar no peito de volta?

    essa mesma história eu ouvi há 1 ano mais ou menos. também dei atenção pro cara meio alto e magro com cara de gringo com meu inglês terrível. foi na região da cásper mesmo. eu tava com o felipe e acabei dando 2 reais pro dito cujo pegar o ônibus, ele dizia que morava no brooklin.
    assim q o cara saiu, o felipe disse: ele é golpista! eu já ouvi essa história uma vez há uns 2 anos aqui na região.
    eu fiquei puta pq o felipe me deixou ser feita de boba, mais por isso mesmo.

    =/
    existe gente que abusa dos bons corações, darling..

  2. 2 camis

    Tina,

    Se ele teve má fé, eu pelo menos tenho a consciência leve por ter tido exatamente o contrário.

    Não estou me sentindo boba. Pelo contrário. Não há por que se envergonhar de crer nas pessoas.

    Aliás, é para isso [pessoas que se aproveitam da fé das outras, e não estou falando desse senhor ou do da sua história] que existe karma.

  3. 3 gambleeverything

    eu ainda acredito nas pessoas, cá.

    não disse isso pra vc se sentir boba. eu me senti, no caso, porque o felipe viu q o cara tava se aproveitando e não disse nada.

    eu achei incrível que isso tenha acontecido com 2 pessoas do meu círculo social, e felizmente, elas têm fé suficiente e dão atenção pra quem pede ajuda.

    pode ter sido coincidência, pode ser verdadeira a história do cara.. e seria melhor acreditar nisso tbm.

    :*

  4. 4 camis

    Eu entendi, xuxu… Por isso te agradeço.

    Se tem algum ponto crítico no meu comment, tenha certeza que não foi direcionado a você.

    É só que prefiro ser enganada por estranhos a ser enganada por pessoas a quem confiei parte do meu coração e da minha fé. Isso sim me deixa sem fé no mundo. E acontece, né?


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