Covardia

18Apr08

Não é uma coisa tão dramática quanto dizer que eu gostaria de ser o protagonista de Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças. Eu não queria apagar as nossas boas lembranças. Queria lembrar mais frequentemente das ruins.

Depois de um ano desejando o impossível, ele começou a se concretizar. Primeiro esqueci seus telefones. Agora pouco tentei lembrar que dia e o que estávamos fazendo quando você disse uma das coisas que mais gostei de ouvir.

“Como você consegue ter o melhor abraço do mundo?” ou algo assim. Era um puta elogio singelo, que qualquer pessoa poderia fazer. Mas vindo de você, era um puta elogio para se guardar.

Hoje em dia eu consigo me lembrar das nossas tardes inteiras tomando café, você fumando. Não tínhamos assunto específico. Você dizia que não tinha assuntos, que só eu sabia encontrá-los. Eu reclamava. Pedia para você contar alguma coisa que nunca tinha me dito. Você dizia que eu já sabia tudo sobre você, que sua vida não era interessante. Mas sempre aparecia alguma coisa nova. Como que eu poderia saber tudo sobre sua vida? Você viveu uns vinte anos sem mim. Não era possível que em trinta tardes você tivesse me contado tudo.

E agora eu lembro dessas tardes como se fossem cenas que eu assisti de longe, como observadora. Posso ver as mesas do mesmo café, posso lembrar dos dias frios em que você aparecia com aquele cachecol que te deixava com jeito de bicha e você fazia graça disso. Lembro das tantas vezes que te deixava esperando e você ficava puto nos primeiros trinta minutos, reclamava até ver que eu estava me sentindo mal, e aí deixava pra lá.

Mas não lembro mais do que dizíamos. Não lembro mais de conversas isoladas, como lembrava. Lembro de escrever nomes de músicas e filmes nos guardanapos, os que eu queria que você conhecesse, e os que você não acreditava que eu ainda não conhecia. Mas não lembro mais quais eram os títulos.

E isso me acalma. Há umas semanas você me perguntou se eu realmente não sentia tua falta. Sinto falta, sim. Mas não mais falta do que orgulho.

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One Response to “Covardia”

  1. Já te falei que eu odeio dejavus?


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