Separação e encontro por J. D. Salinger

01Mar09

Uma boa cena para se ler em um domingo, tirada de Franny & Zooey, de J. D. Salinger.

Aos poucos, inicialmente, depois totalmente, ele deixou sua atenção ser atraída para uma pequena cena que estava sendo representada de maneira sublime, sem o empecilho de autores, encenadores e produtores, cinco andares abaixo da janela e do outro lado da rua.

Havia uma macieira defronte da escola particular para meninas – uma das quatro ou cinco árvores daquele lado feliz da rua – e, nesse momento, uma criança de sete ou oito anos, uma menina, estava escondida atrás dela. Trajava um jaquetão azul-marinho e, na cabeça, tinha um gorro vermelho que era quase do mesmo tom do cobertor da cama no quarto de Van Gogh em Arles. O gorro, de fato, do ponto de vista de Zooey, parecia uma mancha de tinta.

A uns cinco metros da criança, seu cachorrinho – um bassê ainda muito novo, com coleira e tirante de couro verde – farejava para encontrar a dona, trotando em círculos frenéticos, com o tirante arrastando pelo chão.

A angústia da separação era quase insuportável para o animal e quando, por fim, captou o rastro da dona, já era mais do que tempo. O júbilo da reunião foi imenso para ambos. O cachorrinho soltou um breve latido e depois, agitando a cauda, foi encolher-se servilmente aos pés da garota, de focinho erguido em êxtase. Ela então gritou-lhe qualquer coisa e içou-o, aconchegando-o entre os braços. No vocabulário especial da brincadeira, a menina disse-lhe várias palavras de elogio e, depois, colocou-o ternamente no chão, agarrou a ponta do tirante, e lá foram ambos caminhando alegremente na direção oeste, rumo à Quinta Avenida, ao parque, até que Zooey não podia mais vê-los.

Pensativamente, Zooey apoiou a mão numa das esquadrias da janela e debruçou-se para vê-los desaparecer. Mas era a mão que segurava o charuto e ele hesitou um segundo a mais. Quando esticou o pescoço, o par já dobrara a esquina.

– Caramba! – exclamou ele. – Ainda há coisas bonitas neste mundo… e quero dizer bonitas de verdade. Somos uns imbecis se não as vemos e nos deixamos transviar, preocupados sempre, sempre, com o que acontece com a porcaria do nosso ego.

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