Feliz aniversário, Senna

21Mar10

Não sou uma viúva de Senna. E também não tenho a pretensão de acreditar que vou escrever algo inédito sobre ele. Aliás, esse texto não é sobre Senna. É sobre uma menina que aos 5 anos passou a assistir a corridas de Fórmula 1 com o pai, engenheiro mecânico. As primeiras lembranças que essa menina tem de imagens na televisão — além das novelas que via com a avó — são mesmo de carros e de jogos do Palmeiras, o time do pai.
Às vezes a gente não entende razões de afinidade. Aprendi essa lição desde cedo, observando minha relação com meu pai. Minhas maiores paixões sempre foram escrever e ler, coisas que ele, por sua vez, só faz se for obrigado. Mesmo assim, sempre me dei melhor com ele do que com minha mãe. Por isso, desde pequena — antes até do que 5 anos — entendi que para passar tempo com o homem que sempre vou mais amar nessa vida, precisaria adaptar meus gostos e encontrar graça no que ele vê. Por sorte, nunca precisei me esforçar muito.
Pode soar brega, mas meu coração sempre bateu mais rápido ouvindo o ronco de um motor. Só quem já tem essa sensação vai entender e não me achar babaca, mas é verdade: sempre me senti mais viva perto de um carro. Quando estou aborrecida, saio para dirigir. Nada me acalma mais do que pegar uma estrada ou uma pista expressa. Consigo calar todos os pensamentos que estão me perturbando e me concentrar só na potência que está a um pedal de distância.
Não basta dizer que “puxei isso do meu pai”. Gostar de carros e velocidade não é uma doença hereditária. Comecei a adquirir o gosto nas manhãs que passei com ele, colando pecinhas que formariam miniaturas de carros antigos; e depois, nas visitas a oficinas e postos de gasolina, me divertia olhando um capô e aprendendo para que serviam as peças em tamanho real. Quando completei 15 anos, meu pai conseguiu convencer minha mãe que eu já tinha idade o suficiente para aprender a dirigir. Minhas primeiras aulas foram no meio de guindastes e outras máquinas de construção que não têm nomes tão conhecidos para serem citados. Para compreender de vez como usar uma embreagem e que ela é a verdadeira responsável por um carro andar, meu pai me colocou para dirigir um caminhão e sentir como é segurar mais de uma centena de cavalos.
Como eu disse no início, não sou uma viúva de Senna. Não quero entrar nas polêmicas já comuns de quem foi ou teria sido o melhor piloto de todos os tempos. Não acho que valha a pena perder tempo com suposições, imaginando como seria se ele estivesse vivo, se tivesse corrido na época em Schumacher foi grande, se tivesse chegado à Ferrari…
O que importa não é o ‘se’, é o que existiu. E o que existiu foi uma carreira brilhante, com vitórias e emoções para brasileiros que, como o meu pai, passaram a torcer por uma categoria bem diferente da paixão nacional que é o futebol, um esporte coletivo e que pode ser jogado apenas com uma bola em um campinho ou fundo de quintal.
E hoje escrevo tudo isso para lembrar o aniversário do homem que meu pai admirou e me ensinou a admirar. Não vou mentir para o texto ficar mais bonito — não lembro da maioria das vitórias de Senna, eu era muito nova na época. Mas quando assisto a elas novamente, e escuto ou leio entrevistas dele, reconheço a mesma paixão por velocidade que eu tenho. E sinto uma nostalgia boa quando lembro como começou a admiração pelo esporte que até hoje — mesmo sem Senna, mesmo sem reabastecimento, mesmo 16 anos depois — é o meu preferido.

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4 Responses to “Feliz aniversário, Senna”

  1. 1 @besouchet

    Qualquer atitude que desperte memórias e sentimentos tão bonitos e verdadeiros são atos que entram para a história. Não a história da humanidade, mas a história que mais nos importa: a nossa história.

  2. 2 Luiz Megale

    Belo texto, Mamede, na época em que Ayrton morreu, eu, como meu pai, era fã de Piquet, o que então era sinônimo de ter mil ressalvas a Senna. O acidente nos trouxe (a mim e a ele) à lembrança grandes momentos que até então não valorizávamos. Senna nos encantou como nenhum piloto o fez, e foi pena que só nos demos conta disso depois daquela curva que não foi feita em Imola.

  3. Belo texto Camila, afinal é jornalista e eu como seu pai, engenheiro mecânico. Papai era aeronáutico e numa de suas viagens aos EUA, no aeroporto, estávamos com amigos e de repente o tio Fred disse: ‘Olha o Béco’ . Sim ele mesmo, seu vizinho da rua Pedro, no Tremembé e ele, ainda desconhecido do público, com um capacele amarelo mas mãos foi me apresentado. Corria na Toleman e tinha o mesmo destino que papai, Detroit. Ele foi namorado da filha do tio Fred, cresceram juntos e nunca mais tive oportunidade de vê-lo. Mas torcia todas as manhãs na tv, como a maioria dos brasileiros.
    Por pouco ele não se hospedou em nossa casa em Juquey, pois a casa da Cláudia estava lotada, uma pena. Ainda não era campeão e nem frequentava Angra dos Reis.
    Ninguém é viúva ou órfão de um ídolo, não precisamos disso, mas temos todo o direito de admirar um grande homem, como ele foi.
    Abr
    Milton

  4. Também não me lembro das vitórias, Má. Mas me lembro perfeitamente do acidente.

    Eu, que acordava de madrugada para ver corrida de fórmula 1, parei. Parei mesmo. Acho que as poucas corridas que vi de F1 desde então foi por mero acaso…

    Beijinhos!


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