O primeiro assunto e o que aparece toda hora por aqui: a crise. Eu estive na Espanha em setembro de 2010, quando a crise já tinha estourado, mas ainda não afetava tanto o país. Os primeiros efeitos estavam começando, eu saí (por sorte) daqui no dia anterior à primeira greve geral.

E um ano e meio depois, muita coisa mudou. Há muito mais pedintes nas ruas (a maioria diferente dos que vemos no Brasil, claro. Aqui nao há meninos de rua, nem drogados) e a sinceridade chega a doer: um cartaz numa loja de metrô dizia, em caixas altas: “POR CAUSA DA CRISE, venderemos abaixo do preço até o fim do estoque”. Depois de ler isso, baixei os olhos e encontrei os do dono da loja, desanimado, como se dissesse “Pois é”

Apesar disso, a crise aqui é diferente do que no Brasil: um ano e meio e milhares de desempregados depois, o bilhete de 10 viagens do excelente metrô de Madrid (que merece outro post) custa quase a mesma coisa: € 9.30

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Espanha

02Feb12

Viajar sozinha é ótimo, mas em alguns momentos também é ruim. Especialmente quando voce quer comentar algo com alguém. Por isso, decidi reunir aqui alguns dos pensamentos que tive e terei durante a viagem que estou fazendo na Espanha, onde fico até o dia 15.

Sem compromissos, serão apenas impressões e dicas de uma turista a quem tem curiosidade sobre o país ou pretende vir aqui algum dia. A quem quiser me acompanhar, vamos lá!


Foi na repescagem que o Uruguai conseguiu a última vaga nas eliminatórias para a Copa na África. Até as quartas, muito se falou em uma Copa América – eram 4 seleções sul-americanas, 3 européias e 1 africana. Agora, nas semifinais, o Uruguai é justamente o único país o que restou.

Antes da Copa, minha mãe foi visitar meu irmão, que mora em Montevidéu. Pedi a eles que procurassem uma camisa celeste para mim. Não tanto por acreditar que dessa vez o Uruguai faria sua melhor campanha em 40 anos. Mais pela simpatia com o país que tem me encantado, pelas histórias que escuto do meu irmão.

Foi mais difícil do que esperávamos. Em um país com cerca de 3 milhões de habitantes, a capital tem apenas 3 shoppings. Os vendedores das lojas ficavam surpresos com aqueles brasileiros procurando uma celeste. Finalmente, na sexta loja apareceu a primeira camisa. Feminina? Nem pensar. Só havia uma única M. O jeito era levar aquela. “É para sua filha? Que honra! Uma brasileira querendo uma camisa nossa?” disse a vendedora à minha mãe.

Depois do jogo de ontem, muitos vão falar em raça e em garra para descrever a seleção uruguaia. Mas é preciso citar mais uma qualidade dessa equipe: a coragem.

Ontem, o Uruguai teve coragem de enfrentar um estádio inteiro que torcia para o último time africano restante na Copa. Foi corajoso o suficiente para buscar o empate, depois de passar o 1º tempo perdendo; teve bravura para enfrentar – ou melhor, se defender durante 30 minutos de prorrogação contra um time fisicamente superior. E no minuto final, não foi coragem que Luiz Suárez teve ao evitar que sua equipe tomasse um gol, mesmo custando sua expulsão e suspensão no próximo jogo? E quando não havia mais travessão e Suárez para ajudarem Muslera, foram a competência e a coragem do goleiro que o permitiram fazer duas defesas. E por fim, o que dizer da cavadinha de Loco Abreu ao cobrar o último e decisivo pênalti?

O Uruguai já tinha mostrado sua coragem na primeira fase, derrotando por 3 a 0 e praticamente eliminando a seleção anfitriã. Tomara que tenha essa mesma bravura na Cidade do Cabo, ao enfrentar a Holanda.


Talvez tenha sido por causa da pausa nos jogos e por falta de notícias mais quentes nesse hiato. Mas o fato é que, desde quarta-feira, Elano está na capa de todos os sites, cadernos de esporte e até primeiras páginas dos jornais. Todo mundo cansou de ler a fala pessimista do médico José Luiz Runco, e sobre como ele conta “com a ajuda do Papai do Céu” e da natureza para que o meia ainda possa jogar na Copa, caso o Brasil passe pela Holanda.

Afinal, quem provocou tudo isso e tirou um dos jogadores que mais estava se destacando por seleção brasileira, em apenas dois jogos? Que ele é da Costa do Marfim, todo mundo lembra. Aliás, daquele jogo em diante, os brasileiros vão se recordar mais da violência do que do futebol dos elefantes.

Cheik Ismael Tioté é meia no Twente, time que nesse ano conquistou o campeonato holandês pela primeira vez, desde a fundação, em 65. Como muitos marfinenses, – caso de Yaya Touré, Romaric e Gervinho – começou a carreira em um time belga. Aos 19 anos, foi jogar pelo Anderlecht e, dois anos depois, foi emprestado ao Roda e passou a atuar no futebol holandês quando. Na temporada 2008/09 já estava no Twente.

O marfinense estreou pela seleção em agosto do ano passado, contra a Tunísia e, desde então, já participou de 13 partidas – 3 delas na Copa, jogando todos os 270 minutos possíveis na África do Sul. Quase o dobro dos 140 minutos durante os quais Elano atuou, suficientes para dar uma assistência e dois gols ao Brasil.

Na primeira fase da Copa, Elano cometeu 2 faltas; Tioté, 11, além de tomar um cartão amarelo, justamente na partida contra o Brasil, aos 41 minutos do 2º tempo – só 20 minutos depois da entrada no brasileiro. No dia seguinte ao jogo, 21 de junho, Tioté completou 24 anos. Ou seja, se a Costa do Marfim se classificar para 2014, é possível que voltemos a vê-lo por aqui.


Sim, a seleção norte-americana foi derrotada neste sábado por Gana e está fora da Copa do Mundo de 2010. Mas, na verdade, a equipe que foi eliminada nas oitavas de final, após disputar uma partida suada de duas horas – os 90 minutos regulares e outros 30 – saiu da África do Sul vencedora.
Num país em que o futebol sempre foi um mero figurante, atrás dos protagonistas basquete, beisebol e o próprio futebol americano, a primeira década do século XXI mostra que ele está cativando cada vez mais torcedores. Que aprendem cada vez mais as 17 regras desse esporte – bem menos do que as do futebol americano – e, especialmente, a 11ª, após verem dois gols anulados por impedimentos que não ocorreram.
E para os que ainda não conseguiram ou não quiseram aprender as regras, a imprevisibilidade do futebol também garantiu as emoções que os norte-americanos tanto gostam em esportes como o basquete, em que jogos são apertados e placares às vezes são definidos apenas nos últimos segundos. Foi assim que, em 23 de junho, o meia Landon Danovan se tornou o herói do país por um dia e futuro símbolo das gerações de jogadores que vão surgir a partir de 2010. Não é à toa que ele veste a camisa 10: o maior artilheiro na história da seleção foi mais uma vez decisivo: marcou, aos 46 minutos do 2º tempo, o único gol na vitória contra a Argélia, e justamente o que garantiu a classificação dos Estados Unidos para as oitavas.
E é no século XXI que a internet, que se tornou um termômetro de popularidade, comprova como o futebol deve crescer cada vez mais no país. Durante a partida do dia 23, rapidamente a expressão “another disallowed goal” (“outro gol anulado”) chegou aos trending topics do twitter, após um gol que não estava impedido ser anulado – assim como na partida anterior.
No dia seguinte à vitória histórica, passou a circular um vídeo que já foi visto mais de 2,5 milhões de vezes – ao menos quando esse post foi escrito – com as reações de torcedores por todo o país (e todo o mundo) após o gol de Donovan.


Eles podem não entender todas as regras do futebol, mas sabem comemorar

Na 8ª participação em Copas, os Estados Unidos finalmente vibraram de verdade por seus jogadores. Não foi a melhor colocação que o país alcançou em Mundiais – até hoje, nunca conseguiram superar o 3º lugar de 1930. Não foi nem a maior conquista que a seleção conseguiu nos últimos anos – em 2002, chegaram às quartas de final.
Mas algo me diz que os elementos dessa vitória do dia 23 de junho – um líder cativante como Donovan, emoção até os últimos instantes, final feliz como em filmes de Hollywood – vão motivar o país a vir com ainda mais vontade ao Brasil em 2014.


Em 2004, Liu Xiang chegou ao lugar com que a maioria dos atletas sonham: tornou-se um campeão olímpico. O chinês conquistou uma medalha de ouro nos 110m com barreiras nos Jogos Olímpicos de Atenas. Em 2006, quebrou o recorde mundial, e um ano depois, foi campeão mundial. Com esses três títulos, foi o primeiro atleta chinês a ter uma Tríplice Coroa no atletismo. Parecia a trilha certa para conquistar – em casa – o segundo ouro olímpico. Mas o atleta não conseguiu repetir o feito de 2004. Pior, nem sequer pôde competir.

Com uma tendinite crônica no tendão de Aquiles, Xiang entrou mancando na pista. Apesar da expressão aguda de dor que calou os espectadores no estádio Ninho de Pássaro, ele ainda tentou largar na sexta bateria das eliminatórias, mas queimou a largada e teve de desistir. E, desde 2008, se dedicou à recuperação e não teve grandes conquistas.

Aos 26 anos, a vida de Liu Xiang não deve estar fácil. Competindo desde os 15 anos de idade, as cobranças por desempenhos incríveis não devem ter diminuído nem mesmo após a lesão que o tirou das pistas por mais de um ano. No fim do ano passado, em sua quarta competição depois da Olimpíada de Pequim, foi campeão do sudeste asiático. E ainda assim, ao tratar de sua vitória, a maioria das manchetes destacava que ela havia sido conquistada com o pior tempo desde seu retorno. Comparações, cobranças, pressão.

A julgar por seu pai, Liu Xuegen, a situação deve ser exatamente essa. Recentemente, Xiang participou do Mundial Indoor de Atletismo, que começou no último dia 12. Seu melhor resultado foi uma sétima posição nos 60m com barreiras. Nesta quarta-feira, o pai resolveu dar uma entrevista ao jornal China Daily que repercutiu nas agências internacionais e se tornou uma das notícias mais lidas do dia, ao menos no Brasil. Acha que “já está na hora de o filho arrumar uma namorada”. Se está ou não na hora, Liu Xiang é que deveria decidir, sem ter que receber a recomendação do pai estampada pela internet mundo afora.

Não deve ser fácil ser um atleta chinês. A exemplo do crescimento acelerado da economia na última década, o país moldou crianças e jovens para formar um batalhão de super atletas que garantiram, enfim, o melhor desempenho da China em Jogos Olímpicos, justamente nos que foram disputados no país em 2008.

Para entender o que significa cobrança em chinês, é só dar uma olhada nas atuações do país nas últimas quatro Olimpíadas:

– 1996, Atlanta: 4º lugar entre os países, com um total de 50 medalhas, 16 de ouro.
– 2000, Sidney: 3º lugar entre os países, com um total de 59 medalhas, 28 de ouro.
– 2004, Atenas: 2º lugar entre os países, com um total de 63 medalhas, 32 de ouro.
– 2008, Pequim: 1º lugar entre os países, com um total de 100 medalhas, 51 de ouro.

Não deve ser fácil ser um atleta chinês. Pior ainda, ser filho de Liu Xuegen.

Se Liu Xiang arrumar uma namorada, aposto que ela não vai conhecer o sogro em breve


Não sou uma viúva de Senna. E também não tenho a pretensão de acreditar que vou escrever algo inédito sobre ele. Aliás, esse texto não é sobre Senna. É sobre uma menina que aos 5 anos passou a assistir a corridas de Fórmula 1 com o pai, engenheiro mecânico. As primeiras lembranças que essa menina tem de imagens na televisão — além das novelas que via com a avó — são mesmo de carros e de jogos do Palmeiras, o time do pai.
Às vezes a gente não entende razões de afinidade. Aprendi essa lição desde cedo, observando minha relação com meu pai. Minhas maiores paixões sempre foram escrever e ler, coisas que ele, por sua vez, só faz se for obrigado. Mesmo assim, sempre me dei melhor com ele do que com minha mãe. Por isso, desde pequena — antes até do que 5 anos — entendi que para passar tempo com o homem que sempre vou mais amar nessa vida, precisaria adaptar meus gostos e encontrar graça no que ele vê. Por sorte, nunca precisei me esforçar muito.
Pode soar brega, mas meu coração sempre bateu mais rápido ouvindo o ronco de um motor. Só quem já tem essa sensação vai entender e não me achar babaca, mas é verdade: sempre me senti mais viva perto de um carro. Quando estou aborrecida, saio para dirigir. Nada me acalma mais do que pegar uma estrada ou uma pista expressa. Consigo calar todos os pensamentos que estão me perturbando e me concentrar só na potência que está a um pedal de distância.
Não basta dizer que “puxei isso do meu pai”. Gostar de carros e velocidade não é uma doença hereditária. Comecei a adquirir o gosto nas manhãs que passei com ele, colando pecinhas que formariam miniaturas de carros antigos; e depois, nas visitas a oficinas e postos de gasolina, me divertia olhando um capô e aprendendo para que serviam as peças em tamanho real. Quando completei 15 anos, meu pai conseguiu convencer minha mãe que eu já tinha idade o suficiente para aprender a dirigir. Minhas primeiras aulas foram no meio de guindastes e outras máquinas de construção que não têm nomes tão conhecidos para serem citados. Para compreender de vez como usar uma embreagem e que ela é a verdadeira responsável por um carro andar, meu pai me colocou para dirigir um caminhão e sentir como é segurar mais de uma centena de cavalos.
Como eu disse no início, não sou uma viúva de Senna. Não quero entrar nas polêmicas já comuns de quem foi ou teria sido o melhor piloto de todos os tempos. Não acho que valha a pena perder tempo com suposições, imaginando como seria se ele estivesse vivo, se tivesse corrido na época em Schumacher foi grande, se tivesse chegado à Ferrari…
O que importa não é o ‘se’, é o que existiu. E o que existiu foi uma carreira brilhante, com vitórias e emoções para brasileiros que, como o meu pai, passaram a torcer por uma categoria bem diferente da paixão nacional que é o futebol, um esporte coletivo e que pode ser jogado apenas com uma bola em um campinho ou fundo de quintal.
E hoje escrevo tudo isso para lembrar o aniversário do homem que meu pai admirou e me ensinou a admirar. Não vou mentir para o texto ficar mais bonito — não lembro da maioria das vitórias de Senna, eu era muito nova na época. Mas quando assisto a elas novamente, e escuto ou leio entrevistas dele, reconheço a mesma paixão por velocidade que eu tenho. E sinto uma nostalgia boa quando lembro como começou a admiração pelo esporte que até hoje — mesmo sem Senna, mesmo sem reabastecimento, mesmo 16 anos depois — é o meu preferido.


Whenever I’m alone with you,
You make me feel like I am home again
Whenever I’m alone with you,
You make me feel like I am whole again
Whenever I’m alone with you,
You make me feel like I am young again
Whenever I’m alone with you,
You make me feel like I am fun again

However far away, I will always love you
However long I stay, I will always love you
Whatever words I say, I will always love you
I will always love you.

Whenever I’m alone with you,
You make me feel like I am free again
Whenever I’m alone with you,
You make me feel like I am clean again

However far away, I will always love you
However long I stay, I will always love you
Whatever words I say, I will always love you
I will always love you.


The day after you stole my heart everything I touched told me it would be better shared with you.
And you’re hiding in my soup, and the book reveals your face, and you’re splashing in my eyelids as the concentration continually breaks.
I did request the mark you cast, didn’t heal as fast.


O coração, se pudesse pensar, pararia

Fernando Pessoa


Tem um homem pulando atrás de mim. Eu estava pegando o saquinho de adoçante para o café, e percebo esse vulto se mexendo atrás da minha cadeira. Ele não é só um homem, é um pai. Deu para descobrir quando me virei na cadeira para tentar entender por que diabos ele estava pulando, e foi quando vi o filho dele, no colo da mãe, que ria do jeito de pateta dele saltando.
Ele fingia que não alcançava um barbante preso a duas bexigas — uma era vermelha e a outra, azul:
“Me ajuda, filhão!” E a mãe entrega ele para os braços do pai. O homem levanta o filho, mas o menino não entende por quê. Ele não tem noção do que está acontecendo porque não viu o barbante: não olhou para cima, continua olhando para frente.
O pai fica abaixando e levantando o menino, e nada. A mãe olha para cima, eu olho para cima, todos em volta tentam direcionar o olhar do menino para o alto. Ele só precisa esticar um pouco o bracinho e já seria o suficiente para agarrar o barbante — o pé direito do teto ali é baixo, por isso até mesmo o pai teria conseguido pegar as bexigas.
Mas ele quis deixar o filho ter o gosto de recuperá-las. O menino é novinho, pouco mais do que 1 ano — essa talvez seja a primeira vez em sua curta vida que ele resgate alguma coisa. Ficamos eu, o pai e a mãe na expectativa de quando ele vai perceber que aquilo que ele tanto quer está a centímetros da cabecinha dele, bastava olhar para o lugar certo.
Finalmente, numa das vezes em que o pai o levanta, o barbante acaba raspando na cabeça dele, e ele agarra certeiro, com força, aquele barbante. E no rosto dele explode um riso, o primeiro de muitos que ele dará na vida ao conhecer a sensação de alguém que encontra, depois de 5 minutos ou 5 anos, o que tanto queria.


Na última quinta-feira, o Fluminense venceu o Atlético Mineiro, pela 32ª rodada do Campeonato Brasileiro. Enquanto o Galo estava — e ainda está — no G4 (para quem não é fanático por futebol, é o grupo dos 4 primeiros na tabela), o Fluminense ocupava — e ainda ocupa — o Z4 (o oposto do G4, o grupo dos 4 piores na tabela e com chances ao rebaixamento).

Só que, com a vitória da última quinta, o tricolor carioca completou seis jogos sem perder. O que não significa muita coisa em um campeonato de pontos corridos, onde um empate vale apenas 1 ponto para o time, e uma vitória, 3 pontos. Como dizem por aí, em campeonato de pontos corridos, empatar é andar de lado.

Minha mãe, Fluminense desde criancinha, tem um problema: não consegue entender a (simples) ciência de um campeonato de pontos corridos. Há dois meses tento explicar, mas para ela, o que importa é que o Flu não perde há seis jogos, e não que hoje o time está no último lugar da tabela, com 30 pontos (mesma pontuação que o Sport, mas com uma vitória a menos). Minha mãe nem sabe direito quem é o Fred ou que o Cruzeiro, adversário de hoje do Fluminense, tem a melhor campanha do returno do Brasileirão.

Para minha mãe, um jogo do Fluminense é sempre um texto do Nelson Rodrigues, uma música do Chico Buarque. Minha mãe e sua incapacidade de compreender o que significam pontos corridos são a prova de que ignorância é uma benção. Embora apareça em músicas (Ignorance is Bliss, do Ramones), filmes e na crença popular, o primeiro lugar onde li essa frase foi em 1984, do George Orwell, escrito em 1948. Não é exatamente a mesma, mas usa a mesma idéia: “ignorância é força”.

Mesmo quando começarem a aparecer matemáticos nas reportagens falando das chances de cada time, minha mãe não vai entendê-las. Mesmo se disserem que o Flu tem só 1% de chance de não cair para a segunda divisão, ela não vai compreender. Mesmo se afirmarem que já era, agora só em 2010, ela não vai acreditar. Até o fim do campeonato, minha mãe vai suspirar aliviada a cada empate e comemorar cada vitória do seu Fluminense.

Às vezes, é bom ser como ela. Não é bom incentivar sempre a completa negação, especialmente porque se o Flu realmente cair, ela vai ficar bem mais chateada do que ficaria se já estivesse se preparando. Mas às vezes é melhor optar pela ignorância, e continuar abençoada — ou forte, para George Orwell. Às vezes, a gente sabe que as chances daquilo que queremos que dê certo são mesmo mínimas, mas a nossa crença cega e pensamento positivo, podem sim, fazer diferença. É o que prefiro acreditar, ao menos.

Mãe, vou torcer pro Flu com você.


Roteiristas de Hollywood curtem glamorizar a profissão de obituarista. O caso mais bem sucedido foi de Jude Law em Closer, mas um filme chamado Serendipity também teve um bom exemplo. No clássico papel do melhor amigo que ajuda o mocinho a encontrar sua alma gêmea, Dean Kansky (papel de Jeremy Piven) escreve um obituário antecipado do protagonista, Jonathan (John Cusack). A idéia era convencer o amigo de que não ter encontrado seu grande amor naquele momento não era ruim, e o simples fato de ter lutado por ele já era uma vitória. Se ignorarmos os clichês, fica um bom texto. (Aviso: qualquer semelhança com a sua ou a minha vida é mera coincidência. Ou não)

Jonathan Trager, proeminente produtor da ESPN, morreu ontem à noite, por complicações ao perder sua alma gêmea e sua noiva. Ele tinha 35 anos. De fala suave e obsessivo, Trager nunca pareceu um romântico incurável. Mas nos últimos dias de sua vida, ele revelou um lado desconhecido de sua psique. Essa escondida persona quase junguiana surgiu durante sua busca agatha-christiana pela sua há muito desaparecida alma gêmea, uma mulher com a qual passara apenas algumas poucas e preciosas horas. Infelizmente, a longa busca terminou tarde da noite no último sábado, em completo e total fracasso. Entretanto, mesmo derrotado, o corajoso Trager secretamente agarrou-se à crença de que a vida não é meramente uma série de acidentes e coincidências sem significado… Não… Mas sim um tapete de acontecimentos que culminam num belo, sublime plano. Ao responder sobre a perda de seu querido amigo, Dean Kansky, ganhador do Pulitzer e editor executivo do The New York Times, descreveu Jonathan como um homem mudado em seus últimos dias de sua vida. “Tudo ficou mais claro pra ele”, observou Kansky. No final, Jonathan concluiu que para viver em harmonia com o universo, é preciso ter uma fé inabalável no que os antigos chamavam de “fatum”, aquilo que nós atualmente chamamos de destino.